Os meus livros (III)

Se eu tivesse conhecido Clara, a clarividente, uns anos mais cedo, talvez lhe tivesse pedido que me dissesse o que via no meu futuro. Mas o meu encontro com ela, nas páginas de um livro pelo qual me apaixonei, deu-se já numa altura em que não me interessava muito saber o que me reservavam os dias à minha frente.
Mesmo sem ler os seus “cadernos de anotar a vida”, soube a sua história desde a infância até à morte, naquela família de mulheres de nomes “brancos”: Nívea, Clara, Blanca, Alba. Tudo o mesmo, em nomes diferentes, à excepção da irmã Rosa, a bela, a de cabelos verdes. A morte adivinhada de Rosa mergulhou Clara numa mudez voluntária durante 9 anos. Só a quebrou para anunciar a sua decisão de aceitar a vida que adivinhava e casar com Esteban Trueba, o pretendente de Rosa.
A vida com o violento e apaixonado Esteban em Las Tres Marias, o nascimento de Blanca e dos irmãos e o futuro destes enchem páginas de risos, lágrimas e encantamentos. A convivência com o sobrenatural e a quase “abstracção” fazem parte da maneira de ser de Clara, não a impedindo de ser amante, esposa e mãe em toda a plenitude.
Do Chile rural à cidade, a história de Clara e Esteban estende-se temporalmente durante quase todo o sec.XX , até à queda de Salvador Allende e as perseguições que se seguiram. Ideologicamente, em pólos opostos estão Esteban, homem de direita assumido, e Alba, a neta, que vive intensamente a época de Allende e sofre na carne a sua derrota.
Todo o livro podia ser um enorme mural em que a história daquela família fica eternizada. E, seguramente, muitas são as personagens que nos apaixonam. Mas para mim, Clara, a clarividente, é aquela que eu gostaria de ter conhecido, a que faz a ligação entre gerações e, de alguma forma, as influencia e explica.
Se um dia forem ao Chile e um qualquer artista vos vender um quadro de uma mulher sentada numa cadeira que paira no ar, talvez não se trate apenas de uma influência de Chagall. Talvez ele tenha ouvido a história de Clara e tenha resolvido pintá-la…. vinda directamente de “A Casa dos Espíritos” de Isabel Allende.