
Vi o filme há mais de uma semana. Dei o tempo de maturação necessário para, sem pensar muito nisso, conseguir perceber o que decididamente gostei e o que me incomodou na abordagem de Amenábar à história de Ramón Sampedro.
Ao contrário do que possa pensar quem ainda não viu e conhece a história real em que se baseia, o filme não é, de todo, demasiado emocionante ou deprimente. O belíssimo tratamento das imagens da Galiza e a sensação de espaços abertos em que, com a concentração, Ramón se imagina, retira a sensação de claustrofobia e depressão da vida de um tetraplégico que esteve numa cama durante 29 anos e que, por opção, nem sequer admitia deslocar-se regularmente em cadeira de rodas.
A figura de Ramón e a sua personalidade são-nos apresentadas de uma forma muito positiva, havendo inclusive momentos bastante divertidos, como a conversa “à distância” com o padre Francisco, também tetraplégico, que o quer demover da ideia da morte e alguns dos diálogos com Júlia, a advogada por quem se apaixona e Rosa, a rapariga simples que acaba por o ajudar a morrer.
Subjacente a todo o filme está a ideia assente de que Ramón quer morrer e o trabalho legal que a DMD ( Associación Derecho a Morir Dignamente) realiza para que lhe seja dada autorização para o fazer, sem que ninguém seja por isso perseguido pela justiça.
O discurso do advogado que defende a causa de Ramón perante os juízes apresenta um argumento que parece imbatível. Se Ramón se pudesse suicidar sozinho, ninguém o condenaria legalmente caso sobrevivesse, porque à luz da lei, suicídio não é crime. Não o podendo fazer sozinho e tendo afirmado com perfeita lucidez que o queria fazer, porquê perseguir judicialmente quem o ajudasse? Ainda assim, a justiça nega-lhe esse direito e é necessário que quem o ajude seja protegido. Quem conhece a história, sabe que assim foi.
Tenho que esclarecer que, para mim, a eutanásia ou o “suicídio assistido” se coloca no mesmo plano que o aborto. Para que possa haver liberdade de escolha em algo que é intrinsecamente do foro íntimo de cada um, tem que haver lei que o permita. Esta é a minha posição e, por isso mesmo, me interrogo sobre o porquê de algumas reticências em relação ao filme.
Na verdade, o que me incomodou foi a constatação de que, independentemente do seu corpo, Ramón era um ser humano mais vivo que muitos em plena posse das duas faculdades físicas, um poeta, um homem cheio de humor. O que é então a vida? Seria eu capaz, perante um ser humano assim, de o ajudar a morrer? Provavelmente não, tal como Júlia, que sofria de uma doença degenerativa, também não foi capaz de levar a cabo o pacto de suicídio. Foi cobarde? Talvez. Ou talvez tenha sido ela a corajosa. Quem será capaz de julgar?
Penso que Amenábar não quis fazer um panfleto pró-eutanásia. Para que o fosse, teria que “escurecer” muito o ambiente e toda a acção. A atmosfera luminosa, terna e bem-humorada de quase todo o filme dá à morte daquele ser humano excepcional um sabor amargo. Um sabor de perda. No entanto, era a sua inequívoca vontade. E é neste dilema que eu me debato. Sem ter resposta.